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Etarismo

24 de jul.
4 min de leitura

Existe uma contradição que me acompanha há algum tempo nas conversas que conduzo com organizações sobre diversidade.


Quando o tema entra em pauta, quase sempre aparecem as mesmas dimensões: gênero, raça, orientação sexual e deficiência.


São pautas urgentes e essenciais que precisam estar ali.


Porém, quando eu pergunto sobre diversidade etária, o silêncio é diferente: não é o silêncio de quem não sabe o que dizer, mas sim, o silêncio de quem nunca pensou que precisava pensar sobre isso.


Como se envelhecer fosse um processo neutro.


Como se a idade não fosse (em muitos contextos) um dos critérios mais poderosos de inclusão e exclusão dentro das organizações.


Os dados dizem outra coisa.



O que os números estão revelando


O estudo global Talent Trends 2025, realizado pela Michael Page com 50 mil trabalhadores em 36 países, revelou que 41% dos profissionais brasileiros já sofreram algum tipo de discriminação por idade no trabalho.


O índice coloca o Brasil acima da média global de 36% e da América Latina, em 35%!



Uma pesquisa conduzida pela EY em parceria com a Maturi mostrou que 78% das empresas brasileiras admitem ter um perfil etarista.


Não é uma acusação externa.


É uma confissão interna.


E mesmo com essa clareza, a segunda edição da pesquisa Robert Half com a Labora, de 2024, apontou que apenas 30% das organizações têm indicadores para medir o progresso de ações voltadas à inclusão geracional.


Em 2023, esse número era ainda menor: 80% das empresas não sabiam como medir suas iniciativas nessa área.


Dito de outra forma, a maioria das empresas sabe que tem um problema, e não está medindo se está resolvendo.




O etarismo raramente aparece declarado.


Ele não costuma estar na política oficial, nem nos valores afixados na parede.


Ele aparece na linguagem das vagas, onde termos como "perfil jovem" ou "energia de startup" funcionam como filtros silenciosos; aparece na decisão de não chamar para entrevista um currículo com data de formatura de mais de vinte anos atrás; aparece na promoção que não vem; no projeto que não é oferecido; na pressão sutil para antecipar uma aposentadoria que a pessoa ainda não quer…


Segundo a pesquisa Robert Half/Labora, 66% das pessoas desempregadas identificam o etarismo como o principal obstáculo para retornar ao mercado.


E, entre as empregadas, 63% reconhecem que o tema não recebe a devida atenção na organização onde trabalham.


Essa combinação é relevante: quem está fora sabe exatamente o que impediu sua reentrada, e quem está dentro percebe que o problema existe mas não vira agenda.


O silêncio organizacional sobre etarismo tem um custo que aparece primeiro nas pessoas, e depois nos números de turnover, de recontratação e de perda de memória institucional que nunca se recupera completamente.



O que o envelhecimento da força de trabalho vai exigir


Existe um dado demográfico que torna essa conversa urgente de uma forma que vai além da ética: em 2040, 56% da força de trabalho brasileira será composta por profissionais com mais de 45 anos, segundo projeção da EY em parceria com a Maturi.


Não é uma possibilidade distante.


São quinze anos.


E o Brasil não está só: a OCDE mostrou que se os países reduzirem a saída precoce de trabalhadores mais velhos do mercado, muitos deles poderiam ganhar pelo menos 0,2 ponto percentual ao ano no crescimento do PIB per capita.


A Europa já trata o envelhecimento da força de trabalho como questão de produtividade e sustentabilidade econômica, não apenas como pauta de inclusão.


O Brasil, por sua vez, ainda está na fase de reconhecer que tem um problema; como observou recentemente a consultoria especializada Mundo RH:




O que diversidade etária exige das organizações na prática


Falar de diversidade etária sem falar em mudança de processo é continuar no campo da intenção.


O que as organizações que avançaram nessa pauta têm em comum é uma revisão concreta em pelo menos quatro frentes: a linguagem usada nas descrições de vagas, o design de trilhas de aprendizagem que funcionem para diferentes idades e estilos de absorção, a criação de programas de mentoria intergeracional (onde o conhecimento flui nos dois sentidos) e, fundamentalmente, a construção de métricas reais de inclusão etária que permitam acompanhar o que está de fato mudando.



O que me preocupa nesse cenário não é só a injustiça individual, embora ela seja real e mereça ser nomeada.


É o desperdício coletivo.


Mais de 13 milhões de brasileiros com mais de 50 anos estão ativos no mercado de trabalho, segundo dados do Ministério do Trabalho. Esse grupo carrega décadas de experiência, inteligência relacional, capacidade de leitura de contexto e memória organizacional que não se forma em cursos.


Tratar essas trajetórias como passivo em vez de ativo não é apenas discriminação.


É má gestão.



O que precisa mudar


Diversidade que para no gênero, na raça ou na deficiência, sem incluir a dimensão etária, está olhando para parte do quadro e chamando de diagnóstico completo.


Não estou defendendo que todas as dimensões sejam tratadas da mesma forma ou ao mesmo tempo.


Estou defendendo que o etarismo entre na conversa com a mesma seriedade.


Que tenha dados, que tenha meta, que tenha responsável e, que apareça no relatório com o mesmo destaque.


Porque enquanto as organizações seguirem tratando profissionais mais velhos como custo a ser administrado em vez de capital a ser desenvolvido, vão continuar perdendo o que só o tempo constrói; e que nenhuma contratação consegue repor de forma imediata.




Referências:

EY / Maturi — Pesquisa sobre etarismo nas empresas brasileiras: https://www.pluxee.com.br/blog/rh/o-que-e-etarismo

Robert Half / Labora — Etarismo e Inclusão, 2ª edição, 2024: https://jornaldebrasilia.com.br/brasil-7/etarismo-ainda-esta-presente-nas-empresas-brasileiras

Grupo Croma / Oldiversity — Pesquisa sobre preconceito com profissionais acima de 60: https://beneficios.ifood.com.br/acrescenta/artigos/etarismo-mercado-de-trabalho

OCDE — Trabalhadores mais velhos e crescimento do PIB per capita: https://mundorh.com.br/etarismo-expoe-atraso-no-mercado-brasileiro

Ministério do Trabalho — Trabalhadores com mais de 50 anos no Brasil: https://www.siemaco-grs.com.br/wp/2025/03/31/etarismo-no-mercado-de-trabalho

 
 
 

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